Índio de gravata sofre preconceito, diz advogado indígena em MS
Postado no Abril 19, 2008 de crjr
O Dia do Índio, comemorado neste sábado (19), vai marcar a luta contra o preconceito e a violência sofridos pelos mais de 460 mil indígenas que vivem no país. Essa também é a luta do advogado Wilson Matos da Silva, 47 anos, índio guarani e pós-graduado em Direito Constitucional.
O advogado vive na aldeia Jaguapirú, em Dourados (MS), e preside a Comissão Especial de Assuntos Indígenas (Ceai) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Mato Grosso do Sul.
O estado foi palco de 53 mortes de indígenas em 2007, segundo relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado na quinta-feira (10). O documento revelou o crescimento de 99% de mortes em relação a 2006, quando foram registradas as mortes de 27 índios.
É neste cenário que Silva afirma que a violência é fruto do preconceito sofrido pelos índios em Mato Grosso do Sul.Eu sofro preconceito duas vezes aqui. Primeiro por ser índio e, segundo, por usar terno e gravata. As pessoas olham pra mim com ar de surpresa e de desprezo. Até mesmo entre colegas de profissão e dentro do Judiciário também é assim. Parece que uso fantasia.
O advogado indígena disse ainda que muitas pessoas duvidam que ele tenha curso superior. A gente sabe que poucos índios possuem diploma superior no país. Não tenho números oficiais, mas aqui na minha terra, sou confundido com pastor, vendedor, qualquer coisa, menos com advogado. Quando falo o que sou, índio e advogado, as pessoas se espantam.
Esforço até usar terno e gravata:
Silva é filho de mãe Terena e pai Guarani, fala aruaque, língua típica da origem paterna, e guarani, por influência da família materna. Ele lembra que já foi vítima de trabalho semi-escravo.Em 1974, comecei a trabalhar em uma destilaria na região da aldeia. Foram 14 longos anos de trabalho sem condições saudáveis. Felizmente, por minha atual formação, consegui reaver na Justiça esse tempo no registro de carteira
Ele lembra que concluiu o supletivo em 1994 para, então, ingressar na faculdade.Antes ainda, fui trabalhar em rádio. Só fui fazer faculdade em 1998, mas para o curso de letras com ênfase em jornalismo. Fiz o primeiro ano e mudei para ciências contábeis. Só fui para o direito em 1999
Preconceito acadêmico:
Na faculdade, Silva lembra do primeiro dia de aula e das dificuldades que teve de vencer. O preconceito era evidente na sala de aula. As pessoas me olhavam com estranheza. No primeiro trabalho em grupo, apenas eu e um colega vindo de outra cidade ficamos sozinhos.
O troco veio com a nota que os dois tiraram na avaliação do trabalho. Tiramos dez e as coisas mudaram na mesma hora. Viram que tinha facilidade para leitura, interpretação de texto e que não estava em uma aventura
A formatura ocorreu em 2003 e Silva foi o orador da turma.Consegui fazer a prova para tirar a carteira da OAB no ano seguinte. Tive a ajuda de um grande amigo, que pagou a prova, e passei na primeira tentativa.
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